3# REPORTAGENS dezembro 2013 

     3#1 CAPA  O QUE ACONTECE ENQUANTO VOC DORME
     3#2 CULTURA  O ESCRITOR SEM ROSTO
     3#3 CULTURA  EM BUSCA DA BOLA DA COPA
     3#4 CINCIA  DOR ANIMAL
     3#5 CONSUMO  O GOSTO BRASIL
     3#6 COMPORTAMENTO  ACUMULADOR
     3#7 COMPORTAMENTO  MO AO ALTO
     3#8 CINCIA  PAPO CABEA
     3#9 ZOOM  BANKSY ATACA NY

3#1 CAPA  O QUE ACONTECE ENQUANTO VOC DORME
Nunca dormimos to mal  e to pouco. Os brasileiros esto dormindo 1h30 a menos, em mdia, do que na dcada de 1990, e 63% tm problemas de sono. Agora, pesquisas de ltima gerao comeam a desvendar o que acontece durante a noite  e revelam qual  a verdadeira chave para dormir bem.
REPORTAGEM / Anna Carolina Rodrigues
EDIO / Bruno Garattoni

     Ken Parks, de 23 anos, era casado e tinha uma filhinha de 5 meses. Morava com a esposa e a criana em Toronto, no Canad. At que um dia perdeu o emprego. Os sogros, com quem ele se dava extremamente bem, se ofereceram para ajud-lo financeiramente. Ento Ken pegou seu carro e foi at a casa deles. Quando chegou, matou a sogra a facadas e tentou enforcar o sogro. Seria apenas mais um caso de crime em famlia, exceto por um detalhe: Ken estava dormindo, tendo uma crise grave de sonambulismo, quando fez tudo aquilo. Durante o julgamento, ele foi submetido a exames de eletroencefalograma, que apontaram grandes distores em suas ondas cerebrais, tpicas de sonmbulos. Acabou absolvido - e, desde ento, mais 68 casos do chamado 'homicdio sonmbulo' foram registrados no mundo. 
     So casos extremos de distrbio do sono. Mas dormir mal no tem nada de extremo. Na verdade,  a coisa mais comum do mundo - e est piorando. Hoje, os brasileiros dormem em mdia 1h30 a menos do que h 20 anos, segundo uma pesquisa feita pelo Instituto do Sono de So Paulo com 1.024 pessoas. So apenas 6h30 por noite, bem menos do que os entrevistados desejariam dormir (em mdia, 8h10). E 63% tm algum problema de sono. 
     Mas a cincia finalmente comeou a decifrar os segredos desse mundo misterioso no qual ficamos mergulhados por quase um tero da vida. Novos estudos esto revelando por que estamos dormindo to mal, como resolver isso e o que realmente acontece no corpo durante a noite. 

POR QUE A GENTE? 
     DORMIR  UMA DELCIA  mas, do ponto de vista da evoluo,  um comportamento difcil de explicar. Para o homem das cavernas, dormir podia significar nunca mais acordar, pois a chance de ser atacado por um predador era grande. E, mesmo hoje, em que esse risco  muito menor, o sono continua sendo meio paradoxal, porque nos faz desperdiar um tero do nosso tempo de vida consciente. 
     O sono  uma das reas mais jovens da cincia. At a metade do sculo 20, os cientistas acreditavam que o crebro se desligasse totalmente durante a noite, com o nico objetivo de descansar. Hoje, sabemos que no  bem isso. Dormimos por trs motivos: para economizar energia, para fazer manuteno do corpo e para consolidar a memria. 
     O primeiro  fcil de entender. Enquanto voc dorme, seu corpo consome menos energia - pelo simples fato de voc estar imvel e relaxado. Se no dormssemos, teramos de consumir um nmero muito maior de calorias para sobreviver, o que seria extremamente difcil para os homens primitivos. Num mundo onde o alimento era escasso, dormir era fundamental para no morrer de fome - mesmo que isso aumentasse o risco de ser atacado por animais selvagens durante a noite. 
     A segunda funo do sono tem a ver com os processos reparadores que seu corpo executa enquanto voc dorme. Na dcada de 1980, cientistas da Universidade de Chicago comprovaram isso realizando um teste com ratos. Aps duas semanas impedidos de dormir, os bichos simplesmente morreram. Eles tinham desenvolvido manchas e feridas que no saravam e, independente da quantidade de comida que ingerissem, s perdiam peso. At que, de uma hora para a outra, apagavam e no acordavam mais. Morte. O mesmo estudo foi repetido no ano 2000, e a concluso foi a mesma: no dormir mata. Mas os pesquisadores nunca tinham conseguido entender o porqu disso. 
     A possvel explicao s veio no ano passado, em um estudo da Universidade de Surrey, no Reino Unido. Os cientistas mantiveram pessoas acordadas por 29 horas e perceberam uma alterao: o nvel de clulas brancas no sangue delas aumentou bastante, atingindo a mesma quantidade registrada em pessoas feridas. As clulas brancas so o elemento central do sistema imunolgico. Quando voc fica sem dormir, ele dispara - o que, em tese, poderia comprometer a habilidade do organismo de combater infeces. 
     No  s. "O organismo libera hormnios como cortisol e adrenalina, respostas tpicas de situaes de estresse", diz a mdica Luciana Palombini, do Instituto do Sono. E isso desencadeia uma srie de processos j nas primeiras 24 horas. Primeiro, a presso sangunea aumenta. Logo depois, o metabolismo se desregula, e a pessoa sente uma vontade incontrolvel de comer carboidratos (um estudo da Universidade Northwestern, nos EUA, constatou que quem dorme tarde e/ou mal tende a ingerir quase 250 calorias a mais por dia). Em seguida, se a pessoa continuar acordada, comeam as alucinaes. Sim, alucinaes. 
     Veja o caso do estudante americano Randy Gardner. Em 1965, ele aceitou participar de uma experincia na Universidade Stanford - na qual ficou 264 horas (exatos 11 dias) sem dormir.  a maior experincia de privao do sono j registrada cientificamente; e teve efeitos terrveis sobre o pobre Randy. A partir do terceiro dia, ele comeou  perder a capacidade de raciocnio, a ficar paranico e enxergar coisas que no existiam. Ao final da experincia, Randy dormiu 14 horas seguidas. Segundo apontaram testes na poca, no ficou com nenhuma sequela do experimento.
     Mas no dormir, ou dormir mal, pode estar na raiz de doenas neurolgicas gravssimas. Num estudo recm-publicado, pesquisadores da Universidade de Rochester, em Nova York, mostram que o crebro aproveita o sono para fazer uma limpeza - descartando clulas mortas e molculas da protena beta-amiloide, cujo acmulo impede as conexes entre neurnios e provoca Alzheimer, doena incurvel que leva  perda de memria. O que nos leva  terceira funo do sono; gravar - e destruir - as suas memrias. 

SONO, SONHOS E MEMRIA
     O SEU CREBRO no fica 'desligado' enquanto voc dorme. Longe disso. O sono  neurologicamente agitado, com quatro etapas que se sucedem e se repetem durante a noite (veja no infogrfico da pgina 49). A mais interessante  justamente a quarta, identificada pela sigla REM - "movimento rpido dos olhos", em ingls.  o momento em que a pessoa mais descansa, e tambm  a fase em que ela sonha movendo os olhos rapidamente, como se estivesse vendo coisas. 
     Quando uma memria se forma na sua mente, o crebro constri uma relao semipermanente entre os neurnios envolvidos com aquilo. Por exemplo. Vamos supor que voc v a um churrasco. Est fazendo um sol insuportvel, o churrasqueiro deixa queimar a carne, voc fica com fome. Mas nem tudo foi ruim - voc conheceu uma nova pessoa, Maria, que se tornou sua amiga. Essas experincias todas ativam uma enorme quantidade de neurnios no seu crebro - os que registram a sensao de calor, os responsveis por processar cheiros (no caso, de carne queimada) e vrios grupos que analisam todas as caractersticas da Maria, como sua altura, formato do rosto, voz, cor dos olhos, etc. 
     E o crebro fortalece as ligaes entre essa rede de neurnios.  como se eles ficassem "amigos". Passam a se comunicar mais facilmente entre si. A, quando voc se lembrar de algum detalhe do churrasco ou da Maria, aquele mesmssimo conjunto de neurnios ser acionado - e todos os detalhes daquele dia voltaro  sua mente.  assim que a memria humana funciona. 
     Mas ela tambm age enquanto voc dorme. Sabe quando voc vivncia algo durante o dia, e aquela memria reaparece - muitas vezes exagerada ou distorcida - durante os sonhos? Acontece com todo mundo. Um estudo feito pelo psiclogo ingls Mark Blagrove constatou que os acontecimentos costumam aparecer nos sonhos pelo menos trs vezes: na primeira, na quinta e na stima noite de sono aps vivenciados. Mas por qu? E por que as memrias surgem distorcidas, s vezes apimentadas com fantasia e coisas que jamais aconteceram? Existe uma teoria para explicar isso. 
 a hiptese da homeostase sinptica (SHY, em ingls), criada por dois psiquiatras da Universidade de Wisconsin. Apesar do nome complicado, o conceito  simples; durante o sono, o crebro desfaz algumas das conexes entre neurnios, ou seja, ele apaga memrias. O corpo libera cido gama-aminobutrico, uma substncia que enfraquece as relaes entre os neurnios e deleta algumas das memrias adquiridas durante o dia. Objetivo: liberar 'espao', capacidade cerebral, para que voc continue sendo capaz de aprender coisas novas. 
     Essa tese foi reforada por uma pesquisa do National Institutes of Health (laboratrio do governo americano), que este ano descobriu algo intrigante. Durante o sono, os neurnios do hipocampo, regio cerebral que coordena a formao de memrias, disparam "ao contrrio". Ou seja, eles emitem sinais eltricos na direo oposta de quando a pessoa est acordada. Para os cientistas, isso  um indcio de que h memrias sendo apagadas. 
     Para determinar quais lembranas so menos importantes e podem ser deletadas, o crebro v se elas tm ligao com outras informaes j armazenadas na sua mente.  por isso que, se voc e a Maria tiverem algum conhecido em comum, a chance de que voc se lembre dela  maior. Seno, o crebro ir apag-la. "Esse processo funcionaria como um desfragmentador de disco no computador, arrumando as nossas memrias", explica a neurologista Dalva Poyares, da Unifesp. 
     Esse apagamento supostamente acontece na terceira fase do sono, que antecede os sonhos. Ou seja: quando os sonhos comeam,  possvel que o crebro ainda esteja sob influncia da destruio de memrias, ou haja resduos incompletos delas - e isso explique o teor de fantasia nos sonhos. Mas no existem estudos comprovando a relao. J a conexo entre sono, memria e aprendizado  fartamente conhecida. Diversas experincias demonstraram que nossa capacidade de aprender  maior de manh, logo aps acordar, do que de noite. Dormir ajuda a aprender. Mas no  s isso. Tambm  possvel aprender... dormindo. Nos anos 70 e 80, essa promessa era muito usada por charlates, que tentavam vender cursos de ingls "durante o sono". A pessoa escutava uma fita com lies do idioma enquanto dormia e supostamente acordava sabendo falar ingls. No funcionava, claro. Mas um estudo feito pela Universidade Northwestern constatou que , sim, possvel manipular - e reforar - o aprendizado de urna pessoa enquanto ela dorme. 
     Na experincia, 50 voluntrios foram expostos a uma longa sequncia de imagens. Cada imagem vinha acompanhada de um som especfico (como o barulho de uma exploso, por exemplo). Feito isso, os voluntrios foram dormir. S que metade deles recebeu um estmulo durante a noite. Quando eles atingiram a terceira fase do sono, os cientistas tocaram os sons que tinham sido associados s imagens. No dia seguinte, todo mundo acordou e os voluntrios fizeram um teste de memorizao. Quem tinha sido exposto aos sons conseguiu se lembrar de mais imagens, e em ordem mais correta. "Estmulos externos durante o sono podem ter influncia (sobre o aprendizado)", diz o psiclogo Ken Paller, lder do estudo. "A nossa pesquisa mostra que a memria  reforada, com a reativao de informaes durante  noite", explica o psiclogo Paul J. Reber, coautor da experincia. Ou seja: no  possvel aprender algo do zero enquanto se dorme. Mas  possvel reforar, dormindo, a memorizao de algo que se aprendeu acordado. 
     Vale lembrar que a experincia da Northwestern envolve informaes triviais (uma sequncia de imagens). No h comprovao, ao menos por enquanto, de que esse efeito se estenda a aprendizados mais complexos, como idiomas ou as disciplinas da faculdade. No vale a pena dormir ouvindo uma fita com a voz dos seus professores. Melhor garantir uma boa noite de sono. S que isso est ficando cada vez mais difcil.

MEDIEVAL VERSUS MODERNO
     UM ESTUDO DA UNIVERSIDADE de Virgnia estudou a rotina das pessoas no sculo 15, e descobriu que as pessoas costumavam dormir em duas etapas. Primeiro, elas dormiam do entardecer at a meia-noite. A acordavam, ficavam despertas por uma ou duas horas e depois voltavam a dormir at o dia clarear. Isso foi comprovado na prtica pelo psiquiatra americano Thomas Wehr, do National Institute of Medical Health. Nos anos 90, ele confinou um grupo de voluntrios em alojamentos sem luz eltrica. Eles eram obrigados a realizar atividades durante o dia, com o sol, e descansar durante a noite, por causa da ausncia de luz. Aps algumas semanas nessa rotina, algo curioso aconteceu: os voluntrios passaram a apresentar o mesmo tipo de sono segmentado da Idade Mdia. E estavam sempre super-relaxados - descobriu-se que, no intervalo entre esses dois sonos, o corpo liberava prolactina, o mesmo hormnio que causa a sensao de relaxamento aps o orgasmo. 
     Hoje em dia, dormimos de outra forma, em apenas um bloco. Isso  um subproduto da revoluo industrial, que elevou a jornada de trabalho a 16 horas por dia - e limitou quando, e quanto, as pessoas poderiam dormir. At hoje, dormir durante o dia  visto com preconceito. "Precisamos descansar. Descanso faz parte da vida. Ele ajuda nossa produtividade, melhora nosso humor e nos deixa mais criativos", diz a psicloga americana Sara Mednick, autora de estudos que mostram o efeito positivo da soneca. "As pessoas tomam caf para ficarem acordadas e quando chega a noite tomam um remdio para dormir. Ser que esse  mesmo o melhor jeito de encarar uma semana de trabalho?", questiona. 
     Por isso, cada vez mais gente toma remdios para dormir. No Brasil, os trs medicamentos tarja-preta mais vendidos (Rivotril, Lexotan e Frontal) so ansiolticos, que acalmam e ajudam a dormir - e juntos vendem quase 15 milhes de caixas por ano. O problema  que eles, como todos os remdios que induzem sonolncia, podem causar dependncia fsica. A indstria farmacutica ainda no conseguiu desenvolver uma droga para dormir que seja totalmente eficaz e tenha risco zero. Mas continua tentando. Sua nova esperana  o suvorexant, um remdio que inibe a hipocretina, um neurotransmissor responsvel pela viglia. Ou seja: em vez de induzir o sono, como os medicamentos atuais, simplesmente anula a substncia que deixa a pessoa acordada. "Estamos entusiasmados, pois a expectativa  que esse remdio no seja viciante", diz Belen Esparis, mdica do hospital Mount Sinai, em Nova York, e uma das principais especialistas do mundo em sono. Mas o suvorexant foi barrado pela FDA (rgo do governo americano que aprova a comercializao de remdios), que pediu mais testes. 
     Uma soluo mais segura, e possivelmente muito eficaz,  um aparelho chamado Somneo. Ele nasceu de pesquisas da Darpa (diviso de projetos avanados do Pentgono), que queria encontrar um jeito de fazer soldados ficarem at cem horas acordados sem sofrer. No deu certo, mas levou  criao do aparelho, que usa vrias tcnicas para melhorar a qualidade do sono. Trata-se de uma mscara que cobre o rosto, as orelhas e parte da cabea e aquece levemente a regio dos olhos - o que, estudos comprovaram, faz a pessoa adormecer mais rpido e passar mais rapidamente  fase de sono profundo. A mscara tambm permite ao usurio programar exatamente a quantidade de tempo que deseja passar dormindo. Ela tem sensores de eletroencefalografia, que monitoram a transio entre as fases do sono e determinam qual o melhor momento para despertar a pessoa - liberando uma luz que aumenta de maneira gradual. A ideia  que essa mscara seja distribuda aos militares em guerras. Mas, como muitas das tecnologias inventadas para uso militar, ela provavelmente acabar tendo uma verso comercial. 
     Uma possibilidade ainda mais ousada  manipular diretamente as ondas cerebrais, ajudando a pessoa a se manter dormindo ou pular para estgios mais profundos do sono. A tcnica se chama ETCC (estimulao transcraniana por corrente contnua), e consiste em aplicar uma corrente eltrica bem fraca, por meio de eletrodos, em certas reas do crebro. Cientistas da Universidade de Lbeck, na Alemanha, usaram a ETCC para fazer com que voluntrios passassem mais rapidamente pelas duas primeiras fases do sono e ficassem mais tempo na terceira, mais profunda e relaxante. Uma experincia similar, desta vez na Universidade de Wisconsin-Madison, mostrou que  possvel desencadear diretamente o sono profundo emitindo campos magnticos sobre o crebro. Segundo os pesquisadores, isso significa que seria possvel ter os mesmos benefcios fisiolgicos de oito horas de sono em apenas seis. Isso seria o equivalente a um ms de vida', acordado, a mais por ano. Algo extremamente tentador para muita gente. E os voluntrios no apresentaram efeitos colaterais. Mas as mquinas necessrias ainda so grandes, caras e seu uso constante pode ter consequncias imprevisveis a longo prazo. No devem chegar ao seu quarto to cedo. Mas existe uma soluo para dormir melhor. E no  remdio nem mquina. sono 

A CHAVE DO BOM SONO
     VOC J DEVE TER OUVIDO AS recomendaes mais manjadas. Faa exerccios. Tenha uma alimentao balanceada. Tente evitar o estresse. No tome caf de noite. Maneire no lcool. Tudo isso  verdade - e  essencial para dormir bem. Mas a epidemia de insnia no mundo tem outra raiz. 
     O sono  coordenado por um harmnio chamado melatonina. Ela  produzida pela glndula pineal, bem no meio do crebro, e  a chave do "relgio interno" que nos faz dormir e acordar em ciclos de 24 horas. A melatonina tambm est presente em outros animais, em plantas e at em micrbios. Ela  um mecanismo que a natureza criou para adaptar os seres vivos ao ritmo do Sol. Conforme comea a escurecer, o organismo comea a liberar mais melatonina - e voc sente cada vez mais sonolncia, at apagar. De manh, com tudo claro, o nvel de melatonina cai, e voc acorda. 
     Essa  a ordem natural das coisas. O problema  que o mundo moderno, e em especial a tecnologia, est bagunando essa ordem. Depois que anoitece, continuamos a ver televiso e usar celular, computador, tablets, etc. A humanidade vive rodeada por telas que emitem luz. E isso desregula o ritmo do organismo. "Como o crebro no sabe qual a diferena entre luz artificial e a do Sol, ele pensa que ainda  de dia", diz Simone Petera, especialista em medicina do sono. Com isso, o corpo reduz a produo de melatonina, e a pessoa no consegue dormir bem. 
     Existe gente que toma melatonina em comprimidos para  tentar dormir melhor. Ela no tem registro oficial na Anvisa, mas no  proibida - pode ser encontrada em lojas de suplementos nutricionais. Mas no  recomendada. "A melatonina no  uma plula para dormir muito boa, pois o organismo j a produz naturalmente", diz Belen Esparis. Se for tomada em doses erradas, pode atrapalhar o sono. Isso sem contar possveis efeitos colaterais de longo prazo, como alteraes no ciclo menstrual. O melhor a fazer  controlar a iluminao durante a noite - e com isso aumentar naturalmente o nvel de melatonina no corpo. 
     As telas de TV e de gadgets emitem luz com temperatura (tonalidade) de 5.500 graus Kelvin, a mesma que o Sol emite ao meio-dia. Ou seja: so especialmente ruins para o sono. Mas uma experincia feita pela Universidade de Basileia, na Sua, constatou que a luz avermelhada, tpica do pr do sol,  muito menos danosa. E voc pode regular suas telas para que elas tenham esse tom. Na televiso, basta selecionar o modo "Cinema". Nos celulares e tablets Android, instalar um aplicativo chamado Twilight. E no PC e Mac, um programa chamado F.lux. So todos grtis, ou seja, no custa experimentar (no iPhone e no iPad, s  possvel instalar o aplicativo F.lux por meio de jailbreak - destravamento do sistema -, pois a Apple no autoriza o uso do programa). E nunca use lmpadas de luz fria no quarto. Fazer esses ajustes deixa o ambiente mais agradvel e d resultado: o estudo de Basileia mostrou que as pessoas expostas  luz "quente" durante a noite produzem at 40% mais melatonina do que quem recebe luz fria. 
     Mas  noite o ideal  deixar as telas de lado e ler algo que no emita luz, como um livro ou revista. E, se mesmo assim o sono no vier, no se culpar por isso. Dormir meio mal, de vez em quando,  a coisa mais normal do mundo.


O QUE ACONTECE NO CORPO DURANTE A NOITE

BOCA - A produo de saliva diminui e a boca fica mais seca, ambiente propcio para a proliferao das bactrias bucais.  por isso que acordamos com mau hlito. 
PELE - Quando dormimos pouco, o corpo libera mais cortisol, um dos harmnios do estresse. Em excesso, ele inibe a produo de colgeno, protena responsvel por deixar a pele bonita. 
CREBRO - Faz uma limpeza - descartando clulas mortas e molculas da protena beta-amiloide, cujo acmulo impede as conexes entre neurnios e provoca Alzheimer, doena neurolgica que leva  perda de memria. 
MSCULOS - H liberao de hormnio do crescimento que, dentre outras funes, ajuda a reparar as fibras musculares. Por isso, dormir  fundamental para se recuperar de uma leso ou aps fazer musculao.
Fonte: Belen Esparis, diretora do Centro do Mount Sinai Medical Center (Nova York)

TEMPO DE CRESCER  Na adolescncia, o hormnio do sono  liberado mais tarde.  por isso que a pessoa tem dificuldade em dormir e acordar cedo.
DISCRDIA NA CAMA  60% dos homens com mais de 40 anos roncam (geralmente porque esto acima do peso). E isso atrapalha bastante o sono das mulheres  que so as maiores vtimas de insnia.
HORA DO GALO  Conforme envelhecem, os idosos tendem a acordar cada vez mais cedo. E isso tem uma explicao biolgica.

RAIO-X DO SONO
Enquanto dormimos, o crebro passa por quatro fases.
Acordado: 30 Hz
Fase 1 LEVE 5 a 10 minutos. 4 a 12 Hz: As ondas cerebrais desaceleram, e oscilam de 4 a 12 vezes por segundo. 70% menos que quando estamos despertos.
Fase 2 MDIO 20 a 30 minutos. 4 a 7 Hz: As ondas desaceleram mais - e oscilam na mesma frequncia observada em pessoas que fazem meditao.
Fase 3 PROFUNDO 10 a 30 minutos. 0,1 a 4 Hz: No h sono mais distante da conscincia do que este. O crebro produz as ondas delta, muito lentas.
Fase REM SONHOS 10 a 60 minutos. 30 Hz: O crebro dispara, e volta  mesma velocidade de quando acordado. A pessoa mexe os olhos, como se visse algo.

O TESTE Levamos quatro pessoas para passar uma noite no Instituto do Sono de So Paulo. Elas foram conectadas a mais de 20 sensores, que mediram suas ondas cerebrais e o comportamento de todas as partes do corpo (olhos, boca, sangue, corao, pulmo, diafragma, braos e pernas) enquanto dormiam. Elas se deitaram s 22h, e foram acordadas s 6h.

A TRANQUILA
Anna, 25, jornalista, 1,71 m e 68 Kg. Sonolenta durante a adolescncia e parte da vida adulta, se encontrou depois que passou a trabalhar como freelancer e escolher os prprios horrios. "Costumo dormir s 2h e acordar s 10h." 
Apagou a luz: 23h39. 6,7 min at cair no sono.
Tempo sonhando: 20,1% (Fase REM)
366,5 min total (7,8 min acordado)
CONCLUSES: Pega no sono rapidamente, dentro do esperado (o ideal  que a pessoa leve no mximo 10 minutos para adormecer). Respirao correta, sem nenhuma interrupo. Sono bem dividido entre todas as fases. Exemplo de noite bem-dormida. 

O OBESO
Eduardo, 36, taxista, 1,78 m e 136 Kg. Est muito acima do peso. Por isso, tem bastante gordura na regio do pescoo - o que provoca apneia (interrupes d respirao enquanto a pessoa dorme). "Acordo mais cansado do que quando vou dormir. 
Apagou a luz: 22h41. 19,2 min at cair no sono.
Tempo sonhando: 19,9% (Fase REM)
405,5 min total (14,1 min acordado)
CONCLUSES: Caso gravssimo, com 620 interrupes na respirao durante a noite. Na pior delas, Eduardo fica espantosos 108 segundos sem respirar - e o nvel de oxignio no sangue despenca.  a pessoa que mais dorme, mas no descansa.

O AGITADO
Jorge, 32, editor de arte, 1,69 m e 73 kg. Tem o hbito de dormir e acordar bem tarde. Mas seu grande problema  a qualidade do sono. "Aps umas cinco horas dormindo, sempre desperto. Meu sono  todo picado."
Apagou a luz: 23h51. 10,8 min at cair no sono.
Tempo sonhando: 9,4% (Fase RAM)
314 min total (54,4 min acordado)
CONCLUSES: Sono extremamente tumultuado. Jorge se mexe sem parar, alterna rapidamente entre as fases do sono - e desperta 182 vezes ao longo da noite. Por isso, sonha pouco (e apenas uma vez). Ele no sabia, mas tem apneia - e fica at 30 s sem respirar.

O INSONE
Leon, 24, estudante, 1,80 m e 86 kg
Comeou a ter dificuldade para dormir h quatro anos, quando entrou na faculdade. Atualmente, dorme s 3h - e acorda para trabalhar s 7h. Ou seja, no dorme praticamente nada. "Nem eu aguento meu mau humor". 
Apagou a luz: 22h59. Ah30 at cair no sono
Tempo sonhando: 20,7% (Fase RAM)
265,8 min total (9 min acordado)
CONCLUSES: Embora tenha um dficit crnico de sono, demora muito para dormir. Passa boa parte do tempo em sono profundo (fase mais importante para a manuteno do corpo), sinal de que est exausto. Fica pouco tempo acordado, e sonha muito.

PARA SABER MAIS
Dreamland: Adventures in the strange science of sleep, David K. Randall, W. W. Norton & Company, 2012.
Take a Nap! Change Your Life, Sara Mednick, Workman Publishing Company, 2006.
The Slumbering Masses: Sleep, Medicine and Modern American Life, Mathew J. Wolf Meyer, University of Minnesota Press, 2012.


3#2 CULTURA  O ESCRITOR SEM ROSTO
REPORTAGEM / Gabriel Castaldini
EDIO / Felipe van Deursen

Como um misterioso autor brasileiro que publicava textos no Orkut conquistou fs na Inglaterra e acabou apadrinhado pelo editor de Harry Potter.
REPORTAGEM / Gabriel Castaldini 
EDIO / Felipe van Deursen

     Ningum sabe se  homem ou mulher, tampouco sua idade nem de onde veio. S o conhecem como Dark Writer, um misterioso e mascarado escritor brasileiro que ficou conhecido internacionalmente - mesmo sem ter publicado um livro sequer. 
     Tudo comeou em 2010, quando surgiu o projeto literrio chamado DarkWriterProject. Usando Twitter e Orkut, ele pesquisava pessoas que gostavam de ler e estudava seus gostos antes de enviar um pedido de amizade instigando: "Gostaria de acompanhar a criao de um livro?". Esse crivo no incio foi importante para o projeto chegar a pessoas que realmente pudessem se interessar - e divulgar a obra. Quem no apagou a mensagem e resolveu ver do que se tratava descobriu a histria de Mary Prince, jovem de Londres que sai em viagem com a famlia, mas cuja vida toma rumos inesperados aps um meteorito destruir o Big Ben. 
     Por dois anos, os seguidores acompanharam a evoluo da histria, com direito a dar pitacos ao autor, que alterou o fim de um dos captulos ao ouvir a opinio deles. A cada trs ou quatro meses, Dark Writer liberava um novo captulo para download. Ao longo do processo, o autor montou uma equipe para fazer ilustraes, diagramar e divulgar a obra - sem que ningum soubesse sua identidade. "Sou muito tmido. Alm disso, queria brincar com a imaginao do leitor", diz em entrevista via Facebook. Por isso, o anonimato sempre fez parte do projeto. 
     Na Bienal do Livro de 2012, em So Paulo, o escritor apareceu com sua mscara junto da ilustradora Nahamut, que retraa o mundo de Mary Prince e integra a equipe editorial. No bastasse o sujeito estar mascarado, ele s se comunicava por mmica, com Nahamut (que tambm no revela seu nome verdadeiro) bancando a intrprete. A dupla queria divulgar a obra s editoras brasileiras, mas, mesmo chamando ateno com a abordagem inusitada, no conseguiu nada. De qualquer forma, a Bienal teve um papel importante para eles, pois deixou Dark Writer mais prximo de pessoas que s o conheciam na internet. "Entrar em contato com leitores que enfrentaram horas de viagem para nos conhecer mostrou que no podamos desistir", lembra Nahamut  
     A saga de Mary Prince parecia destinada a esse relativamente pequeno nicho de cerca de 10 mil seguidores online at que a professora de ingls Alice Fagiolo, outro membro da equipe, traduziu o primeiro dos nove captulos, em 2012. "J se pensava em levar a histria a outros pases, especialmente a Inglaterra, onde ela se passa", lembra Alice, que foi convidada a conhecer o mundo de Mary Prince por sua experincia como tradutora no Oclumncia, um f-clube brasileiro da saga Harry Potter. 
     Dark Writer passou a ser conhecido entre ingleses. Uma dessas novas leitoras, Alice McCall, 14 anos  poca, tuitou o captulo traduzido pela xar brasileira, chamado A Luz na Estrada, sugerindo-o a um figuro do mercado de livros britnico: Barry Cunningham, editor que lanou J.K. Rowling e seu Harry Potter. Cunningham j havia visto comentrios de fs de Dark em um frum da srie Tneis, publicada no Reino Unido pela editora onde ele trabalha. O barulho funcionou, ele resolveu ler e ento veio a grande guinada. "Logo vi que o trabalho era interessante, mas precisava de organizao. Foi por isso que fiz questo de contat-lo", diz Cunningham. O brasileiro, que at ento teve como editores seus prprios leitores na internet, de repente trabalharia com o homem que deu a chance a um fenmeno que vendeu cerca de 1 bilho de livros nas ltimas duas dcadas. Escritor e editor passaram a trocar e-mails, e em janeiro Dark Writer se mudou para Londres. 
     Cunningham sugeriu retirar quase toda a obra da internet, j pensando em algo maior (embora alguns fs mantenham esses trechos retirados). O autor concordou, feliz da vida. "Demorou para a ficha cair. Ao ver o Barry descendo as escadas do caf, fiquei sem reao", lembra. Na Inglaterra, Dark Writer contou com o apoio dos leitores para financiar 200 cpias do primeiro captulo, que foram distribudas em Londres e Oxford. Uma ttica de guerrilha antes de lan-lo no mercado de vez. At hoje, s Cunningham sabe quem est por trs da mscara.  s um autor ou so vrios?  realmente algum annimo ou um escritor conhecido se escondendo? O mistrio s deve ser revelado em 2015, quando o livro sair com um ttulo decidido, possivelmente, pelos leitores.

MSCARA DE LADY GAGA
Antes de publicar, Dark Writer j se cerca de um marketing poderoso. 
Em junho de 2011, Dark Writer ganhou a mscara que se tornou sua marca (essa a da pgina ao lado). Presente de um f que o autor ganhou por meio do Twitter: o designer americano Joji Kojima, conhecido por j ter colaborado com o figurino de Lady Gaga. "Kojima ficou curioso sobre a minha identidade e a maneira como eu me apresentava nas redes sociais. Ento decidiu me apoiar criando uma mscara exclusiva", diz Dark. Kojimase inspirou nas prprias ilustraes da obra na internet, criadas por Nahamut. Mais um belo golpe de marketing do autor.
LEIA O PRIMEIRO CAPTULO NA NTEGRA
abr.ai/dark-writer


3#3 CULTURA  EM BUSCA DA BOLA DA COPA
Nosso reprter foi at os confins do Paquisto procurar a bola que ir atrair a ateno do mundo no ano que vem, na Copa do Brasil.
TEXTO E FOTO / Maurcio Horta

     O carro est a poucos quilmetros da tensa fronteira entre duas potncias nucleares arqui-inimigas: a ndia, de maioria hindu, e o Paquisto, territrio muulmano. Estamos em um dos territrios mais militarizados do mundo.  beira da estrada empoeirada, pastores com turbantes conduzem suas ovelhas pintadas com hena em direo ao mercado de animais, onde elas sero vendidas para o sacrifcio no feriado islmico do Eid al-Adha. Conforme as pequenas plantaes de arroz vo dando espao a bazares apinhados, o trnsito de riquixs, motos e minicarros Suzuki engrossa. Nas ruas, nenhuma criana chuta bolas. 
     A o carro para diante de uma rotatria. No centro dela h um monumento dourado com uma enorme bola de futebol no topo. Estou em Sialkot, conhecida como a capital mundial da bola de futebol. Minha misso para a SUPER? Encontrar a Brazuca, bola oficial do Mundial de 2014, antes de 3 de dezembro de 2013, quando o vu de segredo ser levantado e a Adidas anunciar a bola para todo o planeta. 
     Na dcada de 1990, Sialkot produzia trs de cada quatro bolas de futebol do mundo. Hoje, a competio chinesa lhe deixou com cerca de 40% do mercado global. Ainda assim, entre as bolas costuradas  mo - que continuam sendo as de maior qualidade -, Sialkot permanece na liderana. So, no total, 40 milhes de bolas produzidas manualmente por 60 mil trabalhadores em centenas de pequenas e mdias fbricas e milhares de oficinas de costura. Um orgulho para um pas mais conhecido pelo caldeiro de instabilidade poltica, extremismo religioso e subdesenvolvimento do que por suas faanhas industriais. 

A PELADA DA COROA 
     Poucos lugares no mundo ignoram o futebol. Um deles so os EUA, que preferem as emoes do basquete, do beisebol e do futebol americano. Outro  aqui. Em todo o sul da sia, o esporte preferido  o crquete, um parente mais elegante do "taco", ou "bet", que se joga nas ruas do Brasil. Como  ento possvel que o Paquisto tenha despontado na produo de bolas de futebol? 
     Tudo comeou na segunda metade do sculo 19, quando os britnicos transformaram o subcontinente indiano na joia da coroa de seu imenso imprio, e os homens da rainha Vitria trouxeram consigo a pelada. Mas bolas de couro se desgastam, ainda mais com o calor mido daquelas terras. E demorava at oito meses para uma bola nova chegar do porto de Londres at os ps dos jogadores. 
     Foi por isso que a indstria de Sialkot surgiu, h mais de 120 anos. A histria varia dependendo do narrador, mas uma verso  a contada no livro History of Foot Bal por Iqbal Sandal, cronista das bolas e diretor de uma das mais antigas fbricas da cidade, a Durus, inaugurada em 1904. Segundo Iqbal, tudo comeou em 1889, quando um sargento britnico se viu com a pelota em frangalhos, de tanto jogar com os colegas. Como os hindus da cidade se recusavam a tocar o couro porque vacas so sagradas para eles, o sargento recorreu a Fazal Elahi, um arteso muulmano. Ele fez o trabalho, mas bastaram trs partidas para que o remendo se desfizesse. Se os ingleses no quisessem esperar oito meses para a prxima pelada, teriam de produzir uma bola do zero. Numa estratgia de engenharia reversa, Elahi desfez os gomos e, usando-os como molde, cortou novos gomos numa pea de couro. Costurou os retalhos, inseriu a cmara dentro e, tcharam!, nascia a primeira bola de Sialkot. 
     O sargento ficou to satisfeito que fez de Elahi fornecedor de bolas dos regimentos britnicos - no s em Sialkot, mas em todo o subcontinente. Com a independncia, em 1947, que deu origem  ndia (com maioria hindu) e ao Paquisto (que virou uma repblica islmica), a elite hindu foi embora para o pas vizinho, levando consigo quase toda a atividade econmica do Paquisto. Mas a indstria das bolas de couro, tradio dos muulmanos, sobrevive  com fbricas pipocando e sendo transmitidas de gerao a gerao. 
     A grande oportunidade de Sialkot veio com o boom econmico na Europa ps-guerra. A alem Adidas produzia na Frana as bolas licenciadas pela Fifa, mas, com o encarecimento da mo de obra europeia, comeou a procurar alternativas. Em 1974, enviou a Sialkot os painis prontos das bolas da Copa da Alemanha Ocidental para serem costurados. O outsourcing deu to certo que a Adidas transferiu para a cidade a produo das bolas da Copa da Espanha, em 1982. Assim comeou a era de (c)ouro da cidade. 

GOL CONTRA 
     Passados segundos, estou coberto de suor, com olhos e garganta incendiados pelo vapor pungente da amnia. Na sala escura e apertada, tambores de ltex de borracha dissolvido em amnia dividem espao com um forno de dois metros de altura e trs tanques de gua. Em meio ao desconforto, o sorridente Saeed-ur-Rehman segue impassvel na visita de apresentao da Reemaxe, a fbrica de sua famlia. Por oito horas dirias, trabalhadores mergulham conjuntos de 12 moldes nos tambores, levam-nos ao forno que evapora a amnia e endurece o ltex e depois os submergem na gua para produzir as cmaras de borracha que inflaro as bolas. 
     No prdio em frente, trabalhadores cortam lminas de PVC com prensas para obter pequenos painis brancos que serviro de gomos de bola - desde a Copa do Mxico, em 1986, o couro, que absorve muita gua, foi substitudo por materiais sintticos na fabricao de bolas. Trabalhadores ento imprimem manualmente com telas de silkscreen desenhos em verde, azul e amarelo. Conforme a tinta  aplicada cor por cor, surgem nos gomos o logo da Copa (aquele que parece o Chico Xavier psicografando) e o mascote, o tatu Fuleco. Fico entusiasmado. Teria eu encontrado a Brazuca logo de cara? 
     No. Na bola, no h logotipo da Adidas.  que essas pelotas no so para os jogos, so para a Globo vender. A Globo Marcas tem o direito exclusivo de explorar marcas da Copa da Fifa de 2014 em mais de 1.500 produtos. So chinelos, bonecos de pelcia... e, claro, a bola com a imagem do tatu de nome infeliz, produzida aqui na paquistanesa Reemaxe. A pelota recebe at o selo hologrfico da Fifa, vindo diretamente da Europa. Mas no  essa a bola que estufar as redes da Copa. 
     Um tanto decepcionado, prossigo na linha de produo. Depois de empacotadas em kits individuais, as cmaras e os painis de PVC so enviados para 1,5 mil costureiros que a empresa subcontrata em pequenas oficinas espalhadas pela regio.  essa  a principal diferena entre o Paquisto e outros produtores de bola. Aqui, a costura  feita artesanalmente em vilarejos. Cada costureiro demora aproximadamente duas horas para transformar um kit em bola e ganha algo como US$ 1 por isso, no caso de bolas de maior qualidade (a Fifa tira algo como US$ 1,50 por bola, 50% a mais que o costureiro). Esse esquema tinha a vantagem de dar trabalho para mulheres, que, por motivos culturais, teriam dificuldades de trabalhar em uma fbrica - mulheres raramente trabalham fora no conservador Paquisto. 
     Mas o sistema de subcontratao tambm tem seus problemas. Em 1996, um estudo da Organizao Internacional do Trabalho (OIT) estimou em 7 mil o nmero de crianas entre 7 e 14 anos trabalhando na indstria de bolas de Sialkot. Em junho do mesmo ano, a finada revista americana Life publicou uma matria com a imagem de Tariq, um garoto paquistans de 12 anos que trabalhava em sistema de escravido por dvida costurando bolas da Nike. "Seis cents a hora" era o ttulo da reportagem. De orgulho nacional, Sialkot se transformou em escndalo mundial. No que o trabalho infantil fosse novidade. Naquele ano, um estudo do governo conclura que 8,3% das crianas paquistanesas entre 5 e 14 anos eram "economicamente ativas". L, o trabalho infantil est presente na agricultura, em servios domsticos, na construo civil, na produo de tijolos, na tecelagem de tapetes... 
     Mas h uma pequena diferena entre bolas e tapetes: o logotipo. Marcas multinacionais tm imagem a preservar, e o envolvimento com "escravido infantil" definitivamente no  algo que os diretores de marketing da Nike ou da Adidas vejam com bons olhos. Com a ameaa de debandada da clientela, a Cmera de Indstria e Comrcio de Sialkot assinou em 1997 junto com a Unicef e a OIT um compromisso para erradicar o trabalho infantil na indstria de bolas. 
     Havia um problema, no entanto. Uma de cada seis casas nas centenas de vilarejos em volta de Sialkot estava envolvida na costura. Era invivel monitorar casa por casa. A soluo? Vedar o trabalho em casa e transferi-lo para pequenas oficinas. Funcionou. Em trs anos, Sialkot praticamente eliminou o trabalho infantil na indstria da bola (ainda que crianas possam ter migrado para outros trabalhos). Hoje, 1.967 centros de costura so monitorados na regio e quase todas as fbricas da cidade recebem o certificado de que no usam trabalho infantil. 
     Bela histria. Mas ela contribuiu para aumentar outro velho conhecido do pas: o Custo Paquisto. Os centros de costura, o transporte e a mo de obra adulta representaram custos extras. Com isso, a bola paquistanesa ficou mais cara. Foi a que o pobre Paquisto ficou de frente com um gigante. A China. 

CUSTO PAQUISTO 
     "O aeroporto internacional com voos diretos para Dubai? Foi a indstria de Sialkot que fez. O porto seco? Tambm. Energia? A gente se vira com o prprio gerador, mesmo pagando pela rede eltrica que no funciona", diz Faraz Zafar, gerente de exportao da Madrigal, fbrica que produz para  americana Voit as bolas do campeonato mexicano (novamente, nenhum sinal de bola da Copa por aqui). 
     Desde sua independncia, o Paquisto vive  beira de se tornar um Estado falido. A primeira vez na histria que um governo democraticamente eleito conseguiu suceder um outro governo democraticamente eleito foi agora, em 2013. Mas esse governo  to disfuncional que no consegue coletar impostos, e, sem impostos, no h infraestrutura. Partes do pas chegam a ficar at 20 horas por dia sem energia no vero. 
     Os insumos da indstria precisam ser importados via porto de Karachi, eleita pela revista americana Foreign Policy a megacidade mais violenta do mundo, tomada por gangues polticas e sob uma crescente influncia do Taliban. Na hora de negociar, estrangeiros tm medo de ir ao pas - tanto que muitas reunies so feitas em Dubai para escapar da violncia. 
     J a concorrente China tem energia subsidiada e transportes de sobra, mantm ditatorialmente a ordem social, produz os prprios insumos e compensa a mo de obra mais cara usando um maquinrio moderno. Com a mecanizao, um trabalhador chins consegue fazer 40 bolas por dia, em vez de cinco manualmente, como no Paquisto. A qualidade pode no ser a mesma da bola feita  mo, mas o preo baixo da bola produzida em massa domina o mercado. 

LTIMA ESPERANA 
     A visita segue para a Duros, fbrica de Iqbal Sandal, o historiador das bolas de Sialkot. Com vrias visitas anuais aos seus clientes brasileiros, Iqbal  provavelmente o cidado paquistans que mais viaja ao Brasil - e adora falar da felicidade com que atendentes em hotis brasileiros recebem suas bolas de gorjeta. Em 1974, a Durus enviou seu primeiro lote ao Brasil. Em 1992, passou a exportar regularmente ao pas, que hoje recebe 95% de sua produo diria de 10 mil bolas. Nos galpes da fbrica, um mar de bolas em verde e amarelo. Eu me animo. Na linha de produo, funcionrios imprimem com telas de serigrafia a palavra "Brasil". Ser que finalmente encontramos a Brazuca? 
     No. Apesar das cores e do nome, no h nenhuma meno  Copa. Aquelas eram apenas bolas produzidas para a brasileira Topper - que, como tantas outras marcas, deve trazer o verde e o amarelo para seus produtos em 2014. 
     Comeo a me sentir derrotado. J so cinco da tarde e a visita organizada pela embaixada brasileira precisa acabar - melhor evitar a estrada  noite. A misso de trazer a Brazuca para a SUPER se frustrou. S me resta, de volta ao Brasil, procurar as vias oficiais, antes que, no dia 3 de dezembro, a Adidas faa o seu lanamento pblico no Rio. 
     Ento, a empresa d a notcia: tal como a controversa Jabulani (criticada pela irregularidade de sua trajetria por goleiros, pelo Cid Moreira, pelo Maradona, por Fidel Castro e at pela Fifa), a Brazuca oficial das partidas tambm ser feita na China, provavelmente de forma automatizada. O fornecedor e a cidade so mantidos em sigilo. E o Paquisto, que nunca foi o pas do futebol,  cada vez menos o pas da bola de futebol.  


3#4 CINCIA  DOR ANIMAL
Mais de 100 milhes de animais so usados todos os anos em testes de laboratrio para se conseguir remdios e vacinas cada vez melhores. Qual  o tamanho da dor que eles sentem?
INFOGRFICO / Inara Negro, Eduardo Szklarz, Felipe van Deursen e Samuel Rodrigues

ROEDORES  93%
POR QUE  USADO?
So a maioria dos testes. Camundongos tm 94% do DNA igual ao nosso e se reproduzem rapidamente.
TESTES COMUNS
Novas drogas contra o cncer: cientistas fazem crescer tumores no animal e depois testam a eficcia e segurana da droga.
Cardiologia: pesquisadores usam camundongos transgnicos que apresentam doenas cardacas (ou induzem estresse cardaco em bichos normais) e testam a eficcia de drogas.
ESCALA DA DOR: Sem dados  Animais ignorados pela legislao americana
CONQUISTAS
Anticoagulantes, vacina da plio, remdios para hipertenso, drogas que combatem a rejeio a transplantes etc.

A MINORIA
S uma parcela de 7% dos testes no tem ratos nem camundongos, mas bichos mais queridos. (*As propores so aproximadas e se referem  realidade nos EUA, na falta de dados concretos no Brasil. )

PEIXE  2%
POR QUE  USADO?
O peixe-zebra  cada vez mais comum: seus embries parecem com os nossos, so transparentes e produzidos fora do corpo da me.
TESTES COMUNS - Novas drogas contra o cncer: ligar e desligar protenas especficas a fim de retardar o desenvolvimento de cncer de fgado.
Funo dos genes: injetam-se partes de DNA no embrio para criar um mutante e assim conhecer melhor o papel de cada gene.
ESCALA DA DOR: Sem dados  Animais ignorados pela legislao americana
CONQUISTAS
Por serem novatos de laboratrio, os peixes ainda no deram uma grande contribuio  cincia.

COELHO  1%
POR QUE  USADO?
 fcil observar seu olho para identificar leses, as reaes da pele so similares s nossas e ele se reproduz como um... coelho.
TESTES COMUNS
Irritao na pele: um produto  aplicado por quatro horas para se verificar se h leses e qual o grau delas. Depois, aplica-se o produto por dez dias seguidos.
Irritao no olho: o produto  aplicado no olho para testar se o contato provoca leso.
ESCALA DA DOR: 58% sem dor, sem drogas  h pouco ou nenhum sofrimento; 39% com dor, com drogas  muito sofrimento, mas h anestsicos para aliviar; 3% com dor, sem drogas  muito sofrimento e nenhum anestsico.
CONQUISTAS
Transplantes de crnea, anticoagulantes, inaladores para asma, remdios para baixar o colesterol.

PORQUINHO-DA-NDIA  1%
POR QUE  USADO?
Muito popular no sculo 20, mas vem sendo substitudo por ratos e camundongos.
TESTES COMUNS
Potenciais cancergenos: forados a ingerir comida ou gua contaminada com o produto qumico testado, s vezes por mais de um ano.
Toxicidade reprodutiva: recebem a droga por no mnimo um ms para se avaliar peso, fertilidade, mortalidade. Aps o estudo, so sacrificados.
ESCALA DA DOR: 54% sem dor, sem drogas  h pouco ou nenhum sofrimento; 30% com dor, com drogas  muito sofrimento, mas h anestsicos para aliviar; 16% com dor, sem drogas  muito sofrimento e nenhum anestsico.
CONQUISTAS
Vacinas contra ttano e difteria, anticoagulantes, dilise, inaladores de asma.

PORCO  5%
POR QUE  USADO?
A pele dele tem 78% de semelhana com a humana e seu sistema cardiovascular  similar ao nosso.
TESTES COMUNS
Produtos dermatolgicos: para doenas e ferimentos de pele, pois a regenerao no porco  bem parecida com a nossa. 
Angioplastia: o porco  um bom modelo para estudar como prevenir a restenose, ou seja, quando artrias se estreitam novamente aps a cirurgia de desobstruo.
ESCALA DA DOR: 22% sem dor, sem drogas  h pouco ou nenhum sofrimento; 76% com dor, com drogas  muito sofrimento, mas h anestsicos para aliviar; 2% com dor, sem drogas  muito sofrimento e nenhum anestsico.
CONQUISTAS
Tomografia computadorizada, pele humana artificial.

CACHORRO  0,3%
POR QUE  USADO?
Anatomia e fisiologia semelhantes s dos humanos,  dcil e fcil de manejar. O beagle, alm disso tudo, tem padro gentico bem definido.
TESTES COMUNS
Cardiotoxicidade: aplicam-se doses prolongadas de substncias em oito ces para ver os efeitos no corao. Os que morrem vo para necropsia.
Pesticidas: o co  usado por ser muito sensvel a agrotxicos. Na Europa e nos EUA, o teste dura 90 dias, tempo para ver os efeitos. No Brasil, um ano.
ESCALA DA DOR: 61% sem dor, sem drogas  h pouco ou nenhum sofrimento; 38% com dor, com drogas  muito sofrimento, mas h anestsicos para aliviar; 1% com dor, sem drogas  muito sofrimento e nenhum anestsico.
CONQUISTAS
Insulina para tratar diabetes, estudo das artrias, cirurgias cardacas, prtese de quadril, transplante de rim, angioplastia, marca-passo;

PRIMATA HUMANO - 0,25%
POR QUE  USADO?
Por ter organismo semelhante ao humano. A diferena entre nosso DNA e o de um chimpanz  de 1,6%.
TESTES COMUNS
Pesquisa de vacinas: o animal  infectado com HIV e outros vrus para se buscar vacinas experimentais.
Resultado: falncia de rgos, problemas respiratrios e neurolgicos.
Experimentos militares: atira-se com armas de calibres diferentes para testar impacto e regenerao dos tecidos dos primatas.
ESCALA DA DOR: 57% sem dor, sem drogas  h pouco ou nenhum sofrimento; 41% com dor, com drogas  muito sofrimento, mas h anestsicos para aliviar; 2% com dor, sem drogas  muito sofrimento e nenhum anestsico.
CONQUISTAS
Incubadoras para prematuros, avanos no combate ao HIV, estimulao cerebral para Doena de Parkinson.

O RESTO - 1,95%
Lula e polvo so alguns dos outros animais usados. Seus grandes neurnios so teis em testes para estudar o crebro humano.

AVANOS
Alguns testes j dispensam animais. Pele humana doada substitui coelhos para testar irritao cutnea. Para a irritao dos olhos, coelhos sofrem menos, pois, na primeira fase, usam-se crneas de bois abatidos. O coelho s entra em cena se o produto testado no corroer o olho do boi. Apesar de tudo, s 8% das drogas que funcionam neles funcionam em ns. Por isso, testes em humanos so necessrios.

Fontes: Agncias Nacionais de Vigilncia Sanitria (Anvisa); Bayer; Departamento de Agricultura dos Estados Unidos; Greyce Lousana, presidente da Sociedade Brasileira de Profissionais em Pesquisa Clnica (SBPPC); Octavio Presgrave, coordenador do Centro Brasileiro de Validao de Mtodos Alternativos (Bracvam); Pessoas pelo Tratamento tico de Animais (Peta); Sociedade Anti-Vivisseco dos EUA (AAVS).


3#5 CONSUMO  O GOSTO BRASIL
Macarro mais mole, suspenso mais dura, xampu com mais espuma. Gringos mudam seus produtos para agradar voc, consumidor brasileiro.
REPORTAGEM / Tarso Arajo
DESIQN / Paula Bustamante
ILUSTRAO / Alexandre Jubran
EDIO / Emiliano Urbim

     Toda empresa sonha com economia de escala: quanto mais unidades iguais, menor o custo de cada uma. Mas essa estratgia tem limites: num mercado global, cada nicho tem suas manhas e manias. O brasileiro, por exemplo,  cheio delas. E as multinacionais fazem tudo para nos agradar - somos o oitavo mercado consumidor do mundo, e seguimos crescendo. 
     "s vezes, a empresa percebe que seu produto precisa se adaptar para vingar", diz Jarcio Barbosa, professor da Fundao Instituto de Administrao (FIA). Em muitos casos a mudana  consequncia de legislao - nossa lei determina que motores no estranhem lcool na gasolina, por exemplo. Mas os fabricantes no hesitam em fazer ajustes para que uma marca de sucesso l fora seja bem recebida por aqui. 
     "Toda empresa global tem de ter um entendimento local, saber o que o consumidor gosta em cada lugar", diz Gabriela Onofre, diretora de marketing da Procter & Gamble Brasil, uma das maiores do mundo no setor de higiene e limpeza. Sua principal concorrente concorda. "O consumidor  o nosso juiz. A gente quer saber o que ele pensa", diz Gabriela Jacob, gerente de marketing da Unilever. 
     Para chegar l, as empresas fazem todo tipo de teste. So estudos de mercado, de comportamento, de comunicao. Algumas empresas at mandam seus funcionrios morar um tempo na casa de consumidores para entender como eles pensam. 
     E assim surgiram carros total flex, desodorantes para o dia inteiro e latte com po de queijo. Tudo como o brasileiro gosta. 

ALIMENTOS
O paladar nacional no costuma ser muito aberto a mudanas, como descobriram marcas gringas que tiveram de se adaptar ao nosso cardpio. 

TALHERES, ARROZ E FEIJO, POR FAVOR - Uma marca que tropeou no primeiro contato com o brasileiro foi a KFC (Kentucky Fried Chicken), aquela dos baldes cheios de frango frito. Nos EUA, o pessoal come s o frango, no mximo com outro balde de refrigerante. E se lambuza todo, metendo a mo nas coxas sem cerimnia. "Eles foram mal nas primeiras tentativas no Brasil. Desde 2012, esto com uma nova proposta. Agora servem o frango com talheres, arroz e feijo", diz Jarcio Barbosa, consultor e professor da FIA. 

AQUI TEM CAF NO BULE - Desde que chegou ao Brasil, em 2006, a rede de cafs Starbucks vem decifrando nossos hbitos. De manh preferimos caf filtrado (expresso, s depois do almoo) e salgados em vez de doces - o icnico muffin de blueberry cedeu espao aos de tomate seco e de parmeso. "So receitas que s existem aqui", diz Renato Grego, gerente de marketing da rede. E s no Brasil o Starbucks tem po de queijo - item mais vendido da linha de salgados. 

MACARRO MAIS MOLINHO - Para fisgar brasileiros, pela primeira vez em 150 anos a italiana Barilla fez uma massa diferente da que exporta para o mundo inteiro. Em vez do grano duro, entrou o grano tenro daqui, mais macio, e ovos na receita. "Fizemos testes cegos, de degustao, de conceito, at termos um produto feito para o gosto do brasileiro" diz Maurizio Scarpa, diretor da Barilla para Brasil e Amrica Latina. Alm disso, o macarro vem no celofane em vez de na caixa e os nomes so gravatinha e parafuso - nada de farfale e fusilli. Capisce? 

PIZZA MAIS FINA E OS SABORES DE SEMPRE - Em 1989, a Pizza Hut chegou com as mesmas receitas dos EUA. "Foi um fracasso retumbante", diz Jarcio Barbosa. Pegaram mal a massa parecida com a de po e sabores como carne moda com pimento. O preo maior que o da vasta concorrncia tambm no ajudava. Em 2011, a marca fez novos investimentos e entendeu que precisava abraar a cultura local. A veio uma massa mais fina, sabores com catupiry e at um chamado de "brasileirinha". Mais direto, impossvel. 

CUIDADOS PESSOAIS 
Marcos gringas buscam solues para nosso hbito de danificar cabelo, fazer espuma e ter lixo no banheiro. 

MANUTENO CAPILAR - "Como a brasileira danifica muito o cabelo, tem uma rotina de tratamento muito mais complexa que em outros pases", diz o francs Blaise Didillon, diretor de inovao da LOreal. Como 60% alisam o cabelo e 70% usam tintura, a manuteno de fios  paixo nacional. Aqui, a LOreal investe em linhas com mais queratina e agentes hidratantes, a Unilever pe agentes condicionantes no xampu TrSemme e a Procter & Gamble tira esses agentes do Pantene para no matar o condicionador. Outra resposta  criar produtos: se l fora elas ficam no xampu e condicionador, aqui usam creme para pentear, de tratamento, reparador de pontas. Os nmeros provam: o Brasil  o quarto maior mercado global de xampu, mas o primeiro de condicionadores, tintura e de creme para alisar. 

DESODORANTE DE ALTA PERFORMANCE - Andar mal cheiroso  imperdovel na nossa cultura. "A relao com o odor  importante em qualquer pas, mas no Brasil  muito mais crtico. Foi muito interessante perceber isso", diz Didillon, da LOreal. Por isso, os desodorantes so feitos para ter um efeito maior e mais duradouro. E, como o sovaco brasileiro vive  mostra, veio outra adaptao cada vez mais frequente: desodorantes com agentes clareadores. 

BANHEIRA DE ESPUMA - Na hora de relanar a verso lquida do sabo Lux, o fabricante tinha duas queixas: ele era difcil de enxaguar e no fazia espuma direito. A frmula, ento, foi modificada para resolveras duas coisas que as consumidoras achavam ruim. O curioso  que, tecnicamente, um produto que faz mais espuma no necessariamente limpa melhor. "Mas a espuma  uma referncia para a brasileira. Ela d a sensao de que o sabo est limpando como deveria", diz a gerente de marketing Gabriela Jacob. "Ento fizemos um produto que fizesse espuma na quantidade, na velocidade e no tamanho certo para ela". 

CQNTRA A TOSQUICE, LMINAS - Revistas masculinas sempre lembram: ao se barbear, aplique gua morna, creme, loo. Frescura, dizem os brasileiros. "Aqui se usa muito sabonete, que seca e irrita a pele", diz Gabriela Onofre, diretora de marketing da P&G. A soluo veio no prprio barbeador: um Gillette Mach3 com lminas mais prximas (para diminuir o nmero de passagens), fita com hidratante e um indicador de que ela est velha. Deu certo: a participao no mercado cresceu 50% em dois anos - apesar de o Mach3 ser dos barbeadores mais caros. 

SIM, TEMOS LIXO NO BANHEIRO -  campeo: 99% dos lares brasileiros tm cesto para papel higinico usado. E d-lhe fsforo, odorizador... De olho nisso, a Kimberly&Clark lanou um papel que controla o fedor das fezes. Foi sucesso aqui e agora vai para a Colmbia, vice no uso de lixo de banheiro. L, alm do controle de odor, o papel tem fragrncia. Aqui no: dizem os testes que brasileiro quer banheiro sem cheiro ruim, mas no quer saber de papel perfumado.

CARRO
Somos o quarto mercado de automveis do mundo. E as montadoras esto interessadas em mexer em todo tipo de detalhe para deixar seus modelos prontos para nossos motoristas - e nossas estradas esburacadas.

CARRO  PARA CORRER - Comparado com europeus e asiticos, somos ps de chumbo. Por isso, as montadoras costumam deixar a relao entre as marchas mais curta, para que o carro acelere mais. "Os chineses ainda esto se acostumando a dirigir, andam bem devagar", diz Eduardo Pincigher, diretor da chinesa Jac Motors, que fez essa mudana no modelo J3. 

LCOOL OBRIGATRIO - Carros flex no so mais uma vantagem competitiva entre os carros brasileiros. "O consumidor j exige isso. Carro popular que no  flex  um problema", diz Tiago Castro, gerente de marketing da Nissan Brasil. Como isso s acontece no Brasil, nos ltimos anos todas as montadoras adaptaram o motor de seus carros para oferecer essa tecnologia. 

ESTOFADO ESCURO - "Interior de carro chins  bege, sem exceo", diz Eduardo Pincigher, da Jac Motors. "Aqui, h a cultura de que carro claro fica encardido. Ento, mudamos nossos estofados para cores escuras." 

LATARIA SBRIA - Nem precisa de teste para saber que brasileiro gosta de carro branco, preto ou prata. "No Japo gostam muito mais de cores chamativas", diz Tiago Castro, da Nissan Brasil. "At temos carros coloridos aqui, mas no tem demanda". A explicao est na liquidez do carro usado: se ele tem uma cor muito chamativa,  mais difcil vend-lo. 

AR-CONDICIONADO FORTE - Calor, n? "Aqui, rodar a 40 graus no  incomum", diz Marcio Alfonso, diretor de engenharia da Ford. "A gente s encontra temperatura similar no Oriente Mdio. E ainda temos umidade alta." Na hora de um novo projeto, os engenheiros usam nosso clima como referncia. Se a refrigerao funcionar aqui, serve para qualquer lugar. 

SOBE LADEIRA - Quando a Nissan conversou com os brasileiros para lanar a nova gerao do Sentra, descobriu que precisaria fazer um modelo 2.0, nico no mundo. "Na Europa, ele no vai ser usado com cinco pessoas mais bagagem numa ladeira. Aqui, fazem isso todo fim de semana para subir e descer a serra", diz Castro. "Brasileiro valoriza carro com mais potncia. 

CONFORTO NA BURAQUEIRA - Para andar no Brasil, o carro precisa de suspenso vitaminada. Todas as montadoras mudam peas e regulagens para que aguentem nossas pssimas estradas. "O carro aqui sofre muito mais do que um que roda numa rodovia alem", diz Marcio Alfonso, da Ford. "A gente acaba desenvolvendo uma suspenso prpria para o Brasil. Ela precisa ficar mais robusta para garantir conforto.


3#6 COMPORTAMENTO  ACUMULADOR
No jogar nada fora por 40 dias deixa claro o quanto consumimos e o tamanho do nosso lixo. E chama ateno para um novo distrbio psicolgico.
REPORTAGEM E EDIO / Felipe van Deursen

40 DIAS DE CONSUMO
EIS O RESULTADO:
34 garrafas
25 revistas
1 CPU
6 caixas de papelo
33 colheres de plstico
38 copinhos de caf
31 papis de bandeja
20 livros (no li nenhum)
46 recibos e notas fiscais (a carteira ficou gorda) 
49 latas (13 de refrigerante, 36 de cerveja
1,5 charuto (cubano, cara)
9 canudos (embalados)
2 peas de roupa
17 jornais
E MAIS:
24 papis de bala, 23 guardanapos, 11 sacolas de supermercado, 8 sabonetes, 5 caixas de leite, 4 sachs de ch, 2 picols, e discos, e panos de limpeza, 2 garrafas pet, sabo em p, caixa de pizza, mouse sem fio, culos coloridos de brinde de casamento, pote de geleia de margarina e de maionese, cereal, caixa de bombons, toalha, escova de dente, etc.
98 produtos, embalagens e inutilidades em geral
TOTAL: 682 unidades.

     O lixo da minha vizinha  limpinho. Ainda bem. Abri e fucei a sacola preta que ela pe na lixeira do andar. Embalagens de comida congelada, de itens de cozinha e de banheiro. Eu j tinha tudo aquilo de monte, no me interessava. Precisava s de seis garrafinhas de uma marca de cerveja conhecida. Como sei que ela sempre bebe essa marca, achei que poderia repor minha coleo. Por trs dias, ao chegar do trabalho, dava um al ao lixo da vizinha, com cuidado para no fazer barulho e provocar os estridentes latidos de seus mnimos ces. No quarto dia, consegui: ela tinha se permitido tomar umas a mais na vspera, e eu faturei as garrafas. Agora sim, poderia voltar ao meu acmulo de objetos. Tudo isso porque vacilei ao ir a uma festa sem levar a mochila que vinha servindo para carregar o entulho particular para casa. Naquela noite, no tive onde guardar as garrafas consumidas e no poderia computar o acmulo. Quando procurei um segurana para pedir uma sacola, ele fez uma cara petulante, como se pensasse "quem  esse trouxa?". 
     Passei 40 dias juntando tudo o que ganhei ou comprei, sem jogar nada fora, a no ser restos orgnicos. Juntei um bocado. No me considero consumista, mas  mais fcil se achar uma pessoa econmica, sustentvel e tudo mais quando voc deixa de pensar no prprio lixo assim que pe os sacos para fora de casa. Se voc passa a juntar tudo o que consome, o cenrio muda. Todo dia, somamos mais de um quilo de dejetos, segundo a Associao Brasileira de Empresas de Limpeza Pblica e Resduos Especiais (Abrelpe). Sem essa quantia se acumulando debaixo do mesmo teto em que se dorme, fica mais difcil ter noo do quanto de lixo produzimos. Ao decidir no jogar nada fora, tentei aprender a conviver com a porcalhada pegajosa em casa. Se uma pesquisa do Ibope de 2012 diz que 1/3 dos brasileiros no faz ideia de onde seu lixo vai parar, agora eu sabia para onde o meu ia: debaixo da pia ou, depois de no caber mais nada, ao lado da cama. Evitava olhar, mas ele estava l, importunando olhos e narizes de quem chegasse perto. 

LIXO DE EMERGENTE 
     A Abrelpe diz que em 2012 as cidades brasileiras geraram quase 64 milhes de toneladas de resduos slidos. Lixo  decorrncia de consumo, e consumo  termmetro de a quantas anda uma economia. De modo geral, quanto mais rica uma populao, mais poder de consumo ela tem, logo mais lixo ela produz. Noruegueses, americanos, suos e neozelandeses superam os 2,5 kg dirios de lixo per capita. A taxa do Brasil, apesar do enriquecimento do Pas, ainda  menos que a metade disso. H dez anos, nossa gerao de lixo por habitante era de 955 g. Desde ento, a populao cresceu cerca de 10%, e o  volume de lixo subiu 21%. Sinal do aumento do poder de consumo, graas especialmente s 40 milhes de pessoas que engrossaram a classe mdia no perodo. Com isso, d para sentir o aumento do rastro de bandejas de carne, caixas de leite e sacolas de shopping no caminho. Efeito colateral do enriquecimento. 
     Consumir faz parte da vida, lindo. Mas precisa tanta embalagem? Fora isso, alguns produtos poderiam ter seu design repensado. Por que escovas de dentes no tm refil, para repor as cerdas gastas? Outro exemplo: dos 7,5 cm de um cotonete comum, 5 cm so a haste de plstico, que poderia ser usada de novo. Mas vai tudo para o lixo (embora eu tenha lavado e, bem, ele fica parecendo um intil gnomo molhado). H os excessos de pequenas embalagens, tambm. Quando fui almoar em um restaurante japons, os palitos vieram embrulhados em papel. Ao comer no trabalho ou na rua, se fosse "levar para viagem", invariavelmente eu ganhava de brinde dezenas de guardanapos - s vezes embalados. E sempre muito mais do que precisava, a no ser que fosse alimentar um filhote de urso. Canudos, ento... Em todas as ocasies me deram mais de um. A maioria embrulhada. Por que preciso de trs canudinhos? Por que embalados? 
     Higiene, economia, preservao. Existem motivos para as embalagens existirem,  claro. E tambm existem profissionais especializados em buscar melhorias nelas, para que sejam mais teis e menos dispendiosas. Enquanto isso, ns seguimos comprando e consumindo. A Associao Brasileira da Indstria do Plstico prev que cada pessoa no Brasil consumir 46 kg de plstico em 2015. Um aumento que acompanha a escalada global. Em 1950, a produo mundial de plstico era de 1,5 milho de toneladas, coisa  toa. Atualmente, so 265 milhes de toneladas por ano. Com essas e outras, ns chegamos a bizarrices como a ilha de plstico do Pacfico, uma monstruosidade sem tamanho definido, com uma rea maior que o Estado de Minas Gerais nas estimativas mais humildes. Um lixo formado pelo encontro mundial de pedaos pequenos da turma do polietileno: garrafas PET, tampinhas e sacolas, entre outros. 

EMBRULHOS E ENTULHOS 
     Embalagens so um smbolo do consumismo.  algo que ficou mais claro nos anos 70, lembra Carlos Anjos, professor da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Na poca, surgiram os grandes supermercados e os sistemas de pegue-pague e self-service. "As mercadorias deixaram de ser vendidas a granel", diz. Foi a exploso dos saquinhos. 
     Nos ltimos anos, tem gente querendo reverter esse lado menos til e agressivo das embalagens. A maioria ainda so prottipos ou aes temporrias, mas j mostram um caminho. A Wikipearl, uma loja de Paris, vende sorvetes e iogurtes sem nenhuma embalagem plstica. Seus produtos vm envoltos em uma tecnologia desenvolvida pelos criadores da empresa, que consiste em uma pelcula feita de partculas naturais de comida que no absorve sujeira. Uma embalagem comestvel, em suma. A Natura lanou uma linha de produtos cujas embalagens tm 70% menos plstico. Ano passado, o Bob's embalou seus sanduches com papel comestvel. Todo ano, designers do mundo todo so premiados por criaes que reduzem o desperdcio, como o sul-coreano Yeong Keun Jeong, que inventou uma embalagem de manteiga com tampa em forma de faca. Mas so medidas pontuais. Ainda falta muito para termos embalagens mais inteligentes e funcionais em grande escala. 
     O lixo nosso de cada dia assusta, ainda mais quando no se abre mo dele. Foi o que ocorreu comigo. A mesa no trabalho ficou impraticvel com tantos papis e copinhos de uma gua escura e doce que uma mquina no fim do corredor oferece como caf. No encontrava livros sob meus escombros. No 23 dia, a faxineira do andar levou uma bronca de seus superiores por, visivelmente, ter abandonado uma das mesas da redao da SUPER. Na verdade, ela s estava respeitando o aviso "por obsquio, no retire o lixo nem de cima nem debaixo da mesa". Tudo foi resolvido. Aps os devidos esclarecimentos, meus dejetos e o emprego dela estavam a salvo. 
     S que meu lixo (e o seu e o de todo mundo) , por incrvel que parea, ridiculamente pequeno perto do que outros setores provocam. O especialista em resduos slidos Maurcio Waldman, autor de Lixo: Cenrios e Desafios, diz que o lixo urbano, aquele acumulado pelas cidades e seus habitantes, representa s 2,5% dos detritos mundiais. Os grandes sujadores do planeta so pecuria, minerao e agricultura. H uma interseo de gerao de lixo entre os setores, por isso a soma d mais de 100% (veja mais ao lado). Mas como uma fazenda pode causar tanto estrago? Os dejetos dos 7,9 milhes de porcos de Santa Catarina poluem quatro vezes mais que o coc de todos os brasileiros juntos. E uma mineradora? "Cada parte de ouro gera 5 milhes de partes de resduos", diz Waldman. "Quem compra aliana pensa na montanha de lixo envolvida?". Por isso que, ao olhar para trs e analisar toda a cadeia de produo, especialistas dizem que cada saco de lixo que geramos representam 60 sacos produzidos anteriormente. Os meus seis grandes sacos de lixo representam, ento, 360. O grosso do lixo pode estar longe da cidade, mas ainda  nosso. E, com tanto consumo, criamos um distrbio psicolgico. 

A NOVA DOENA 
     Todo mundo  consumidor. Muitos so consumistas. E h os acumuladores compulsivos, uma das novas doenas descritas no DSM-5, o manual da Associao Americana de Psiquiatria, publicado no primeiro semestre. O distrbio, at ento, era um subitem do transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Mas uma srie de estudos mostrou diferenas entre eles, e agora os especialistas passam a v-los de maneira separada. Acumuladores compulsivos so pessoas que juntam de maneira patolgica objetos de tudo que  tipo. H os acumuladores de roupa, de lixo e at de gatos. Eles no so colecionadores, pois no fazem a catalogao dos objetos tpica de quem coleciona. Acumuladores no tm controle sobre suas coisas. Os pertences ocupam cmodos inteiros  e influem drasticamente na vida deles. Muitos so abandonados pela famlia por no se livrarem de nada. Outros viram questo de sade pblica. 
     Todo esse problema est ligado a um distrbio cerebral que deixa a capacidade de tomar decises extremamente complicada. Sim, pode ser difcil para qualquer um se desfazer de algo. Mas, para essas pessoas,  quase impossvel. Di. Eles nunca sabem quando vo precisar daquilo, se jogam fora ou no, se vo ou no se arrepender. Ento, postergam, deixam para decidir em um dia que nunca chegar. "Muitas vezes, o indivduo sente uma necessidade de comprar objetos associada a uma sensao de culpa", diz o psiquiatra Eduardo Perin, do Consrcio Brasileiro de Pesquisa em TOC. 
     Existem relatos de acumuladores compulsivos desde o sculo 14, mas eles nunca estiveram to em evidncia. A abundncia de objetos baratos e acessveis talvez tenha transformado isso em um dos grandes distrbios do nosso tempo, dizem os especialistas Randy Frost e Gail Steketee em Stuff ("coisas", sem edio no Brasil). Segundo o livro, nos Estados Unidos, h 40 anos, quase ningum alugava depsitos externos para guardar objetos que no cabem em casa. Hoje, essas reas ocupam o equivalente  cidade de Vitria, no Esprito Santo: 93 km2 servindo unicamente para acumular posses. Os EUA tm duas vezes mais shoppings que escolas. Para os autores,  difcil desvencilhar isso do fato de os acumuladores compulsivos terem ganhado mais destaque: entre 2 e 5% da populao americana tem a doena. Existem pouqussimos dados a respeito no Brasil, mas se ela realmente estiver ligada ao comportamento consumista de uma sociedade, como j se v nos EUA, estamos nesse caminho. 
     Alguns pesquisadores j comeam a citar outro tipo de acmulo. "Estamos nos transformando em acumuladores digitais", diz Russell W. Belk, especialista em consumismo e professor da Universidade York, no Canad. "Msicas, e-mails, fotos...". Para ele,  uma forma de entulho que incomoda menos, j que no ocupa espao fsico, mas que no deixa de ser acumulismo. E a internet proporciona muito mais que posses virtuais,  evidente. Nas trs compras online que eu fiz em 40 dias, por exemplo, juntei uma quantidade considervel de papelo, papel, plstico e isopor. Em uma delas, um pote resistente veio todo envolto em plstico-bolha, como se fosse de vidro. Um desperdcio. Pagamos o conforto de receber em casa com mais embalagens e mais lixo, talvez mais que o necessrio para um transporte seguro. 
     Mas, para falar a verdade, eu estava menos preocupado com o excesso de papelo e plstico das grandes varejistas online do Brasil do que com a possibilidade de algum rato aparecer no meu quarto. Por mais que no houvesse comida e eu lavasse tudo, as embalagens ainda guardavam uma frao daquilo que preservaram um dia, quando reluziam em uma gndola ou vitrine. Era uma lembrana nada cheirosa de seu passado recente. Em um ms, meu banheiro estava impregnado com um cheiro forte de charuto misturado com jornal velho e margarina. Nenhum animal nojento foi visto em meus domnios, ufa, embora tenha recebido um ou outro olhar de estranheza ao viajar de nibus com uma sacola de lixo. Virei motivo de piada para meus amigos e colegas de trabalho. Fui apelidado de lixo e rainha da sucata. Meus primos perguntaram se virei catador. 
     No sou acumulador compulsivo, ento se livrar do lixo no foi um dilema. Mas percebi que sou muito mais consumista do que achava. Ganhei ou comprei 20 livros, ainda no li nenhum deles e dificilmente me livrarei de algum em pouco tempo - curioso como acumuladores de livros no so vistos com maus olhos. Em vez disso, folheei um romance inspirado na histria real de dois irmos americanos do comeo do sculo 20, excntricos e milionrios, os Collyer. Um deles, Langley, acabou virando, provavelmente, o acumulador compulsivo mais famoso dos EUA. A histria  trgica. Aps dcadas acumulando objetos to dspares como jornais, pianos e um Ford T em sua manso, Langley foi encontrado morto pela polcia, preso entre uma cmoda e uma cama. Ratos j haviam comido parte do seu rosto. A causa da morte foi igualmente triste e estranha. Ele foi soterrado pelos seus prprios objetos. Foi morto pelo seu lixo. 

O LIXO DAS CIDADES
Todo dia, no mundo, so 2 milhes de toneladas de lixo em hospitais, aeroportos, rodovirias, estabelecimentos comerciais etc. Esses detritos so os chamados resduos slidos. Entre eles, est o:
LIXO CASEIRO
So 4 tipos  e cada um tem seus problemas.
MIDO  Restos de comida, leo de fritura, podas de jardim etc.
3% vira compostagem no Brasil
ESPECIAIS  Pilhas, baterias, pneus etc.
1% das pilhas tem descarte correto no Brasil.
SECO  Latas, frascos, vidros, plsticos etc
67,7% dos municpios brasileiros no fazem coleta seletiva
INSERVVEL  Papel higinico, tocos de cigarro etc.
90% das multas no Rio por jogar lixo no cho em 2013 se referiam a cigarro

MATERIAIS MAIS RECICLADOS NO BRASIL
Lata de alumnio: 98,4%. Brasil  lder mundial h mais de 10 anos
PET: 54%
Vidro : 47%
Lata de ao: 46%
Papel: 45%

QUANTO SE RECICLA
ustria 62,8%
Alemanha 61,8%
Blgica 57,6%
Holanda 50,9%
Sua 50,5%
EUA 34,7%
Brasil 13%

ONDE EST O LIXO DE FATO
Construo Civil: 3%. Restos de reformas e obras geram mais resduos no Brasil que em pases ricos.
300 kg/m2 Taxa de entulho nas obras no Brasil
100 kg/m2 Taxa de entulho nas obras na Unio Europeia, em mdia

Pecuria: 39% Para se chegar ao bife, haja ossadas e carcaas de animais, resduos mecnicos e lixo orgnico
Dejetos de 1 porco = Dejetos de 100 homens

Minerao: 38% Movem-se montanhas para fazer joias e obter matrias-primas usadas na indstria.
1 g de cobre  400 g de resduos
1 g de ouro  5 ton de resduos

Indstria: 4% Por mais que se busque minimizar perdas, sempre h mquinas velhas e sobras do processo industrial.

Agricultura: 19% Muita matria orgnica, fertilizantes e pesticidas, alm do desperdcio de comida.

TRALHA ELETRNICA
Estimativa da taxa de resduos de equipamentos eltricos e eletrnicos no Brasil (em milhares de toneladas/ano)
2013: 918,7
2014: 1008,6
2015: 1134,6
2016: 1231,5
2017: 1218,5
2018: 1143,9

TAXA PER CAPITA ANUAL (EM KG/HAB)
Reino Unido 29,4
Frana 24
Dinamarca 23,2
Brasil 4,8

Fontes: Associao Brasileira do Alumnio (Abal); Agncia Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) e Ministrio do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio Exterior (MDIC); Agencia de Proteo Ambiental dos Estados Unidos (EPA); Agncia Europeia do Ambiente (AEA); Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre); Instituto Brasileiro de Geografia o Estatstica (IBGE); Instituto de Pesquisa Econmica Aplicada (Ipea); Organizao das Naes Unidas para Agricultura e Alimentao (FAO); Programa da ONU para o Meio Ambiento.


3#7 COMPORTAMENTO  MO AO ALTO
Pornografia online vicia, altera seu jeito de fazer sexo e pode causar impotncia. Melhor ler isto antes de apertar aquele play.
TEXT / Tasa Szabatura

     Um cara jovem, bonito, conquistador, que namora a Scarlett Johansson, mas prefere ver pornografia online. Parece filme, e : Como No Perder Essa Mulher estreia em dezembro. Mas, Scarlett  parte, o enredo no est to longe da realidade. Com a banda larga e bundas variadas a alguns cliques de distncia, todo mundo j deu uma espiadinha. O problema  que muitos no querem fazer outra coisa. Cada vez mais gente abre mo de uma pessoa real para passar horas se masturbando na frente de uma tela. 
     O sexo solitrio sempre teve sua graa - um estudo recente da Universidade de Cambridge concluiu que pornografia  to viciante quanto drogas. Mas por que s agora aparecem os viciados? A resposta est na melhor ferramenta j criada na histria da humanidade para estoque, distribuio e consumo de pornografia: a internet. 
     At o advento da rede mundial de computadores, voc precisava ir a uma banca de jornal para comprar uma revista de mulher pelada. 
     Se havia certo constrangimento em tirar um filme porn na locadora, imagine alugar vrios. Hoje, voc assiste no celular tudo que tinha na locadora - e muito, mas muito mais. Tara por animais, anes, amputaes, fezes, palhaos. Na rede, os seus desejos mais ntimos encontram uma via de expresso. E ningum precisa ficar sabendo. 


DARWINISMO E ONANISMO 
     A biologia evolutiva explica por que alguns no conseguem trocar sites porn por nada neste mundo. A masturbao surgiu para que o estoque de smen fosse renovado, e assim uma semente mais jovem e competitiva pudesse brigar com a de outros machos. A pornografia simula e acelera esse processo: seu crebro acredita que, a cada novo vdeo, uma fmea diferente est sendo fecundada. Essa  a razo pela qual os homens so maioria nesse mundo.  difcil ter uma estatstica exata, mas estima-se que 70% do pblico dos sites adultos  masculino. As mulheres ficariam com os 30% restantes - um nmero que vem crescendo. 
     O curioso  que a masturbao no vem de um instinto animal, mas da imaginao humana. Sabemos disso graas a abnegadas como a antroploga E.D. Starin, que passou cinco anos na Gmbia observando macacos e registrou apenas cinco casos de masturbao com ejaculao. Detalhe: os machos estavam em contato visual com outras fmeas, algumas delas copulando com outros machos - uma verso selvagem do Xvideos. 
     Ou seja, por mais que chimpanzs cocem a virilha no zoolgico e constranjam visitas escolares, o homem ainda  o nico animal que se masturba de forma consciente, para atingir o orgasmo. Jesse Bering, doutor em psicologia e autor do recm-lanado Devassos por Natureza: Provocaes Sobre Sexo e a Condio Humana, contexto  fundamental. "Da prxima vez que voc se sentir no clima, deite na cama, apague a luz, no pense em nada e no veja nada. Em seguida tente s com o toque atingir o clmax." Acredite, no  to fcil.  a cognio humana que faz com que um adulto se masturbe a cada 72 horas - em mdia, com ampla e folclrica variao. O problema  quando a cognio vira compulso.  

CINCO SENTIDOS CONTRA UM 
     O estudo de Cambridge, citado no comeo do texto, mostrou que o porn vicia da mesma maneira que algumas substncias, desregulando o crebro. Quando um vdeo proporciona prazer, esse prazer leva voc a buscar outro vdeo. Cada novo clique  um estmulo para o centro de recompensa, que se torna dependente dessa anestesia constante. "A pornografia, como o lcool e as drogas, enfraquece nossa capacidade de enfrentar certos tipos de sofrimento (...) ela reduz a nossa capacidade de tolerar nossos dois humores ambguos e oscilantes: a preocupao e o tdio", escreve o filsofo Alain de Botton em Como Pensar Mais Sobre Sexo. Longas maratonas no PornTube podem ser uma fuga de problemas. 
     Outra coisa; chega uma hora em que os vdeos corriqueiros no so mais suficientes. Voc no se excita mais vendo o papai-e-mame de sempre, nem o mame-e-mame ou papai-e-papai. Como nas drogas, voc vai desenvolvendo uma tolerncia e precisa de mais para se satisfazer. Logo, logo, o sujeito est indo atrs de coisas pesadas e ilegais, como cenas reais de estupro e pedofilia. E  a que muitos decidem procurar ajuda. 
     H algum tempo, j existem grupos de apoio para usurios compulsivos de pornografia, mas agora surgem na internet grandes fruns para discutir o tema e buscar solues - nem que seja encontrar disposio para ir ao supermercado ou ao banco. O maior portal sobre o tema se chama yourbrainonporn.com e l voc encontra de estudos cientficos a depoimentos informais. Gary Wilson, o psiquiatra por trs da ideia, chegou a dar uma palestra no TED sobre os efeitos da pornografia no crebro - cujo vdeo alcanou uma audincia digna de hit porn, 2 milhes de acessos. "As pessoas esto comeando a questionar se  isso que elas querem para as suas vidas. Muitas chegam  concluso de que pornografia demais  um atraso", diz Wilson. O psiquiatra tambm atribui  pornografia mudanas de etiqueta ("nossas avs no faziam sexo oral e anal como se faz hoje") e esttica:  "Depilaes radicais, cirurgias ntimas e clareamento dos genitais, antes restritos a atrizes porn, passaram a fazer parte do cotidiano". 
     Mas o vcio em pornografia pode estar trazendo problemas mais graves: disfuno ertil e dificuldade para ejacular tm complicado a vida de homens cada vez mais jovens. E h casos de quem no consegue, ou nem faz mais questo, de conhecer uma pessoa real ou sair de casa. Para a filsofa Mrcia Tiburi, isso acontece porque  mais fcil se relacionar com um avatar: "Uma pessoa concreta me obriga a tomar posio, a reagir, a interagir. Uma imagem  s um objeto que se submete  manipulao". 

JUSTIA COM AS PRPRIAS MOS 
     Quer dizer que fizemos a Revoluo Sexual para ir para casa fazer sexo com ns mesmos? O futuro  um quarto escuro iluminado pela tela de um tablet trepidante? Calma. No h nada de errado com a masturbao, nem com pornografia, desde que elas no afetem a sua vida (ver teste ao lado). 
     Alis, tirando quem realmente tem um problema srio, o que mais se observa  uma tentativa do "uso consciente" dos sites adultos. Sabe a tendncia que j se espalhou de dar um tempo nas redes sociais? Pois , muitos jovens tm chegado  concluso que, assim como o uso exagerado do Facebook e Twitter, a pornografia est tirando um tempo precioso de suas vidas. Passar a noite de vdeo em vdeo pode ser prazeroso no curto prazo, mas vale a exausto do dia seguinte? "Do modo como  hoje, a pornografia pede que deixemos para trs nossa tica, nosso senso esttico e nossa inteligncia", constata Alain de Botton. Vem da aquela sensao de repugnncia e derrota quando a euforia chega ao fim. Mas no precisa jogar o computador fora, abandonar tudo e ir morar numa montanha. Assim como com outras tentaes, voc precisa estar consciente do risco que corre e simplesmente apreciar com moderao. "Acho que essa reflexo acerca do nosso comportamento  mais enriquecedora que o resultado de qualquer estudo", diz Wilson. 
     O certo  que a pornografia nunca vai acabar. Ela  fundamental na vida sexual de quem menos se imagina. No livro Bunny Tales - Behind Closed Doors at the Playboy Mansion ("Contos da Coelhinha - Atrs de Portas Fechadas na Manso da Playboy", sem edio brasileira), a modelo Izabella St. James conta como foi ser parte do harm do fundador da Playboy. Aos 78 anos, Hugh Hefner ainda realizava orgias todas as quartas e sextas. E, na hora de finalizar, dispensava as namoradas: gozava assistindo vdeos.  

A internet  porn
30% de tudo que circula na rede  pornografia
12 min  o tempo mdio que uma pessoa passa num site de pornografia
Entre os usurios de sites porn 70% so homens 30% mulheres
O PORTAL PORN XVIDEOS
TEM O TRIPLO DE ACESSOS que o site da CNN

O PORN ONLINE EST AFETANDO SUA VIDA?
SE AINDA ESTIVER NA DVIDA, RESPONDA E SAIBA

Voc transforma a visita a sites adultos em um ritual?
A- Sim. Imagino que namoro as estrelas porn. Esses delrios ocupam minha cabea durante o dia.
B- Gosto de criar um ambiente confortvel, mas fao isso de maneira natural, sem afetao.
C- Vejo o vdeo e fao o que tenho de fazer. Nada de frescuras.

Voc se v consumindo material pon que teria vergonha de descrever para algum?
A- Comecei com homens e mulheres e hoje s consigo me satisfazer com pornografia pesada. No vou entrar em detalhes.
B- Fui ficando mais exigente e j vi de tudo, mas ainda consigo me excitar com a maioria dos vdeos.
C- No chega a tanto. Fico satisfeito com o que est a um clique de distncia.

Voc encara uma maratona porn?
A- Se eu no precisasse trabalhar, passaria o dia todo nos meus sites pornogrficos favoritos.
B- J aconteceu de eu passar a madrugada vendo vdeos, mas no  sempre.
C- Tenho muitos interesses na vida. Nunca os deixaria de lado por pornografia.

O excesso de dedicao  pornografia pode estar lhe causando problemas como disfuno ertil e ejaculao precoce?
A- Sim, e por isso comecei a me medicar.
B- J aconteceu de eu no conseguir transar por excesso de pornografia, mas no foram permanentes.
C- Nunca tive esse tipo de problema.

Some o valor de cada resposta e confira o resultado
A: 10 pontos
B: 5 pontos
C: 0 ponto

At 5 pontos Pode continuar a acessar os seus sites de vez em quando, um pouco de sacanagem no faz mal a ningum.
De 5 a 10 pontos Apesar de a pornografia no afetar diretamente a sua vida, talvez voc fosse mais feliz se conseguisse se dedicar mais a outros interesses.
Acima de 15 pontos Voc  feliz assim? Ou j pensou em procurar ajuda? Essa deciso s cabe a voc. Na internet mesmo, h vrios caminhos. Se mandar bem no ingls, comece pelo yourbrainonporn.com. Do Brasil, o blog badporn.wordpress.com pode ser um comeo. Alm de reunir textos sobre o assunto, possui um frum no qual  possvel trocar experincias de forma annima.


3#8 CINCIA  PAPO CABEA
Tudo o que sabemos sobre crebro pode estar errado.  o que diz uma nova corrente de pesquisadores. Entenda a bronca dos neurocticos.
REPORTAGEM / Salvador Nogueira

     Foram milnios de chutmetro. Quem quisesse entender a mente humana s tinha uma coisa a fazer: especular. Mas eis que, na dcada de 1990, os cientistas puderam ver nosso crebro em pleno funcionamento. Tecnologias avanadas pareciam colocar a mente humana finalmente ao alcance. 
     Seguiram-se duas dcadas de muitos progressos - ou no? Comea a emergir, em um grupo ecltico de pesquisadores, a sensao de que todas as imagens coloridas do sistema nervoso em ao no passam de miragem. Ainda estamos muito longe de compreender como o crebro produz a conscincia. 
     "Quando se fala em imagens do crebro, ver pode equivaler a acreditar, mas no necessariamente a compreender", afirmam a psiquiatra Sally Satel e o psiclogo Scott Lilienfeld, autores de Brainwashed: The Seductive Appeal of Mindless Neuroscience ("Lavagem cerebral: O apelo sedutor da neurocincia irrefletida"). Recm-publicado nos EUA, o livro  apenas um de uma leva que busca baixar a bola dos neurocientistas. 
     A grande questo  o que se pode e o que no se pode saber sobre o funcionamento do crebro. Estamos falando de um sistema nervoso com cerca de 600 trilhes de conexes paralelas, trabalhando de forma frentica para manter nosso corpo funcionando. O que chamamos de conscincia  uma parte relativamente pequena dessa conta. Ironicamente,  onde tudo parece se complicar. 

ALGUNS ACERTOS 
     Um dos lampejos mais antigos da neurocincia - obtido ainda na poca em que o imageamento sofisticado no estava disponvel -  o de que o crebro  dividido em mdulos. Cada pedao seria responsvel por uma certa funo. Mas as coisas no so to simples assim.  
     No crebro, temos um fenmeno conhecido como plasticidade.  a capacidade de modificar as conexes cerebrais para adquirir novas habilidades. Graas a essa capacidade constante de reorganizao, podemos aprender novas coisas e produzir memrias. Ou sofrer um acidente cerebral, mas recuperar movimentos na fisioterapia. Ou tocar piano muito bem - a rea do crebro responsvel pelo movimento dos dedos se expande nos pianistas. A plasticidade foi confirmada e reforada em anos recentes com tcnicas que permitem ver o crebro trabalhando em tempo real. 
     O novo passo , nessa tempestade de impulsos eltricos, conseguir ver imagens. Imagens mesmo: em 2011, pesquisadores da Universidade da Califrnia em Berkeley conseguiram reconstruir imagens coloridas obtidas a partir da viso de voluntrios usando ressonncia magntica funcional. Os vdeos gerados no so uma perfeio, mas permitem ver vultos das imagens a que as pessoas foram expostas enquanto estavam na mquina de ressonncia. Eles esperam que, no futuro, seja possvel gravar sonhos para rever na televiso quando estiver acordado. 
     Inovaes como essas fazem parecer que, finalmente, o entendimento de como funciona nosso pensamento est a apenas um passo ou dois de ser compreendida. S que no. 

VRIAS FALHAS 
s vezes, os neurocientistas se entusiasmam tanto que comeam a imaginar ter explicado coisas que esto longe de ser resolvidas. "A despeito de inferncias bem informadas, o maior desafio do imageamento  que  muito difcil os cientistas olharem para um ponto ativo em uma imagem cerebral e conclurem com certeza o que est acontecendo na mente da pessoa", dizem Satel e Lilienfeld. 
     Um exemplo eloquente de como eles podem escorregar na casca de banana aconteceu em 2008, quando um grupo de neurocientistas da empresa FKF Applied Research, de Washington, tentou enxergar o "posicionamento poltico" no crebro de voluntrios indecisos sobre sua preferncia na eleio presidencial americana. Eles foram colocados em mquinas de ressonncia magntica e expostos a imagens de diversos pr-candidatos democratas e republicanos. Segundo suas concluses, publicadas em artigo no jornal The New York Times, os dois pr-candidatos mais impopulares eram John McCain e Barack Obama, meses depois indicados por seus partidos. Obama ganhou aquela eleio e  to "impopular" que foi reeleito no ano passado. 
     Para a dupla de neurocticos americanos, h fatores intangveis na compreenso da mente que nunca surgiro em imagens cerebrais. "O domnio neurobiolgico  de crebros e causas fsicas. O domnio psicolgico  de pessoas e seus motivos. Ambos so essenciais para um entendimento completo de por que agimos como agimos", escrevem a psiquiatra o psiclogo. 
     E o que pensa um neurologista, mais acostumado aos fatos nus e crus da fisiologia cerebral? Se esse neurologista for o americano Robert Burton, a opinio no  muito diferente. "Olhar para as mais detalhadas imagens do crebro no capturar o que sentimos quando experimentamos amor ou desespero, tanto quanto examinar os pixels individuais numa pintura no lhe dar um senso geral do quadro", afirma. 
     Um dos desafios das pesquisas de neurocincia  que, para correlacionar um tipo de pensamento a um padro de atividade cerebral,  preciso que o voluntrio relate o que est pensando. A fica fcil dizer que visualizaram "amor" ou dio" no crebro. Mas  quase uma redundncia. O voluntrio j sabia o que estava sentindo, e no precisava de uma imagem cerebral para provar! Por outro lado, sem a informao de quem est "do lado de dentro" da mente, o padro de atividade em si no permite mais que inferncias muito gerais. 

MENTES QUE MENTEM 
     Em seu livro A Skeptic's Guide to the Mind: What Neuroscience Can and Cannot Tell Us About Ourselves ("Um guia ctico para a mente: o que a neurocincia pode e no pode nos dizer sobre ns mesmos"), publicado em 2013, Burton sugere que acreditar demais no poder da neurocincia pode levar a situaes dramticas. Com ampla experincia mdica, ele lembra os casos em que a pessoa fica em coma profundo, ou em estado vegetativo, por vrios anos. 
     Alguns neurocientistas tm investigado o nvel de atividade cerebral nesses pacientes e sugerido, a partir disso, que eles ainda esto conscientes, apesar de incomunicveis. Burton defende que essa  uma concluso precipitada, sem base em cincia slida, e que pode levar ao sofrimento muitos parentes que tiveram de fazer a opo por desligar o suporte de vida a esses pacientes. Indo mais longe, Burton acredita que h uma falha essencial que impedir os humanos de compreenderem sua prpria mente. 
     "Acho que todos ns - neurocientistas, cientistas cognitivos, psiclogos, filsofos e leigos - deveramos estar cientes do paradoxo essencial", afirma. "Faz parte da condio humana experimentar uma mente gerada de forma involuntria que acredita que pode explicar a si mesma de maneira racional. Esse paradoxo  inevitvel e no contornvel com cincia melhor ou novas tecnologias." 
     Ser?  

NEUROSSUCESSOS

REAS DO CREBRO - J se identificaram o centro de recompensa, as reas responsveis pela memria, pela viso, pela audio e at mesmo que regio  usada na leitura (uma atividade aprendida, em que o crebro empresta uma rea associada a reconhecimento de rostos). 
COORDENAO MOTORA - Experimentos em macacos iniciados pelo brasileiro Miguel Nicolelis, da Universidade Duke, mostram que  possvel extrair sinais do crebro e interpret-los por computador de forma que o animal controle braos robticos ou um cursor na tela. Espera-se que isso resulte em prteses cibernticas para paraplgicos. 
IMAGENS DA MENTE - Estudos no Japo j mostraram que  possvel interpretar sinais do crtex visual e transform-lo em imagens muito prximas do que os voluntrios esto vendo. O passo seguinte  fazer a mesma coisa com sonhos. 

NEUROFRACASSOS 

BAIXA CONFIABILIDADE - Uma reviso recente publicada na revista Nature Reviews Neuroscience demonstrou que os estudos de neurocincia em geral tm uma confiabilidade estatstica muito baixa. Como eles usam poucos voluntrios,  difcil distinguir fenmenos reais de flutuaes. 
CAD OS REMDIOS? - Embora a compreenso de fenmenos neurolgicos que levam a doenas como epilepsia e mal de Alzheimer tenha aumentado, pouqussimas drogas eficazes surgiram como resultado dos avanos recentes da neurocincia. 
O PERIGO DO ERRO - Na ndia, em 2008, eletroencefalogramas foram usados para condenar  priso perptua uma estudante de 25 anos, acusada de matar o ex-noivo envenenado. Outros dois foram condenados por assassinato pelo mesmo mtodo, at que um relatrio, naquele mesmo ano, mostrou que os exames eram absolutamente inconclusivos. 


3#9 ZOOM  BANKSY ATACA NY
Banksy, o artista ingls que ningum sabe quem  (ele mantm a prpria identidade em segredo), resolveu brincar com a cidade por um ms. Fez uma interveno urbana a cada noite - e revelou o feito em seu site no dia seguinte. O projeto detonou uma onda de leiles, polmicas e ameaas da polcia - que tentou, e no conseguiu, prender Banksy. Veja os melhores momentos.
REPORTAGEM / Cristinte Kist

11 de OUTUBRO
CORRA QUE A POLCIA VEM A
Um caminho cheio de vacas, porcos e galinhas - todos de pelcia - ficou rodando pela cidade. Era uma crtica  criao de animais para abate. Algum, provavelmente a polcia, grudou um rastreador GPS embaixo do caminho. Banksy descobriu: e colocou o aparelho em um carro alugado para despistar as autoridades.

10 de outubro
APROPRIAO INDBITA
O grafite mostra um castor que "roeu" um poste at derrub-lo. Mas acabou virando fonte de renda para um grupo de valentes do Brooklin, que cobriram o desenho com um papelo e exigiram US$ 20 de quem quisesse fotograf-lo.

16 de outubro
MCBURGUS
Uma esttua do palhao Ronald foi levada para a frente de vrios McDonald's. Junto dela, ficava um menino pobre engraxando os sapatos do palhao (era um ator, contratado por Banksy). A polcia ameaou apreender a esttua e prender o garoto.

13 de outubro
FALSO CAMEL
Banksy montou uma banquinha no Central Park, onde ofereceu algumas de suas gravuras por apenas US$ 60 (elas valem milhares de dlares no mercado de arte). Mas s vendeu sete - pois as pessoas acharam que eram imitaes.

18 de outubro
VIGILNCIA 24h
Banksy faz uma parceria com os gmeos, os grafiteiros brasileiros Otvio e Gustavo Pandolfo. Eles pintaram dois quadros e os penduraram embaixo de uma ponte. Banksy contratou seguranas para que no fossem retirados por ningum.

21 de outubro
A POLMICA RACISTA
Um muro do Bronx, onde boa parte das pessoas  negra, amanheceu com a seguinte frase: Ghetto 4 Life ("gueto para sempre"). Banksy queria criticar os esteretipos atribudos ao bairro. Mas os moradores no entenderam e o acusaram de racismo.

29 de outubro
UM NAZISTA DE BRINDE
Banksy comprou um quadro em uma loja. No dia seguinte, resolveu devolv-lo. Mas com uma mudana: adicionou o desenho de um nazista sentado em um banquinho. A loja acabou leiloando o quadro e doou o dinheiro para caridade.


31 DE OUTUBRO
Procurado
No ltimo dia, Banksy simulou uma pichaco com bales em um muro do Queens, uma forma de "assinar" o trabalho que ele fez durante o ms. A polcia, que passou o tempo todo tentando encontr-lo, confiscou a instalao poucos dias depois.


